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A Magia da Gambiarra

  E lá vinha Castiel, com o punhado de arruda-do-monte na mão e a alma mais cansada que anão em dia de rodeio, pisou fundo na C10. O caminho de volta pra Rivergrove era uma descida infernal, e ele via as luzes da cidade piscando no horizonte como um coração morrendo. Quando chegou na rua do mercado do Seu Valdir, o cenário era de guerra. As casas estavam com as luzes acesas, mas a fumaça preta que saía dos bueiros e das chaminés já cobria a maioria das lâmpadas. O grito dos vizinhos e o rugido das sombras se misturavam num inferno de barulhos.
Ele parou a caminhonete com um solavanco na frente do mercado, que agora parecia um bunker improvisado. O Pálido que antes estava no telhado da Dona Sula, agora estava enfiando a mão gigante pela janela do mercadinho, tentando agarrar o Prefeito Epaminondas, que se defendia com um escorredor de macarrão.
— Valdir! Epaminondas! Saiam da frente que o Castiel chegou e ele não trouxe florzinha pra monstro não!
— Castiel! Pelo amor de Deus, homem! Aquele bicho tá comendo as promoções da seção de biscoitos! Ele quase comeu o Epaminondas!
— berrou o Seu Valdir, com a cara mais branca que papel.
Castiel pulou da C10, abriu a porta da oficina com um chute e jogou a arruda-do-monte em cima da bancada. Ele arrancou a mochila de baterias dos ombros, que estava apitando um alarme de bateria fraca, e pegou o refletor que ele tinha "pegado emprestado" da construção. Ao invés de tentar o ritual de barro novamente, o plano agora era mais brutal: uma "Super Lanterna de Arruda" que fritaria as sombras como bacon.
— Saiam daqui, vocês dois! Eu preciso de espaço e de silêncio pra fazer a magia da gambiarra!
— Que magia, Castiel? Você vai rezar pra lâmpada?
Castiel pegou o refletor, a arruda, o saco de sal grosso e o resto de querosene. Ele arrancou o vidro protetor do refletor e começou a esfregar as folhas de arruda no espelho interno da lâmpada, fazendo um caldo verde e espesso. Depois, ele jogou o sal grosso em cima da arruda e pingou o querosene.
 — O Pai das Sombras gosta de brilho, né? Pois ele vai ter um brilho que vai fazer a alma dele virar purpurina de festa junina!
— Que cheiro é esse? Parece arruda com desinfetante!
— reclamou o prefeito, fechando o nariz.
— É o perfume da vingança, Epaminondas! E você não vai querer estar por perto quando eu acender isso aqui. Valdir, me dá aquele isqueiro de churrasqueira!
Valdir, ainda tremendo, jogou o isqueiro pra ele. Castiel ligou os fios do refletor diretamente numa bateria de caminhão que estava carregando na oficina, garantindo força total. Ele segurou o isqueiro, olhou para o prefeito e o Valdir, que estavam com os olhos arregalados, e deu um sorriso forçado
 — Se isso não funcionar, eu juro que abro uma petição pra Rivergrove virar o novo aterro sanitário do inferno.
  Ele acendeu o querosene com arruda e sal na frente do refletor. A mistura pegou fogo com um "vrum" que fez a oficina tremer. A chama, em vez de ser amarela, era de um azul elétrico, vibrando com a energia da arruda e do sal. A luz que saiu do refletor não era só luz era uma onda de energia que parecia ter peso, um raio concentrado de purificação.
— É isso! O Farol da Vingança! Agora o bicho vai ver o que é sol de verdade
Castiel saiu da oficina, segurando o refletor como se fosse um lança-chamas místico. O Prefeito e o Valdir se jogaram no chão, cobrindo os ouvidos. O Pálido que estava na janela do mercado soltou um grito de dor quando a luz azul o atingiu, e ele recuou, desaparecendo na escuridão da noite.
— Saí da frente, seus branquelos! O Castiel veio pra apagar a luz da farra de vocês!
Castiel subiu na caçamba da C10, que ele tinha posicionado virada para a rua principal. Ele ligou o refletor e mirou na direção dos bueiros, onde a névoa negra e o canto dos mortos estavam mais fortes. O raio de luz azul bateu na névoa e começou a dissipar ela como se fosse fumaça. Os sussurros viraram gemidos agudos.
— Toma essa, seus encostos! A festa acabou!
— Nossa Senhora, que clarão! Parece que o
sol resolveu nascer no meio da noite!
— gritou o Valdir, com uma mão nos olhos.
As sombras que estavam nos postes e telhados começaram a chiar e a se encolher, como se estivessem derretendo. Castiel não deu trégua. Ele girava o refletor, varrendo a rua principal. Cada raio de luz que atingia um Sedento ou um Pálido fazia o bicho soltar um grito de agonia e desaparecer em cinzas, deixando um cheiro de enxofre e arruda queimada.
— É a limpeza de primavera, seus desocupados! Voltem pro buraco de onde vocês nunca deveriam ter saído!
— "Castiel... você... não... pode... apagar...
tudo..."
— a voz do Pai das Sombras ecoou na mente dele, mais fraca agora, mas ainda com raiva.
— Posso sim, seu velho barbudo! E vou te mandar de volta pro inferno com um brilho que vai fazer você usar óculos escuros até na tumba!
O céu de Rivergrove, que estava coberto pela fumaça negra, começou a clarear, como se a luz do refletor estivesse rasgando a escuridão. Os monstros que não foram atingidos começaram a recuar, voltando para os bueiros e para as fendas dos muros, fugindo daquele farol de arruda e querosene.
Castiel sabia que estava na hora de acabar com a fonte. Ele saltou da caminhonete, deixando o refletor aceso e apontado para a rua, e pegou o último selo de barro que tinha no bolso, a adaga de prata e o resto do pó de enxofre. Ele correu em direção à floresta, onde a boca da caverna estava.
— A gente tem que ir atrás dele, Valdir!
— gritou o prefeito
— Não, Epaminondas! A gente só atrapalha! Deixa o homem trabalhar!
— Que homem? Aquele ali é um demônio de luz agora!
 Na entrada da caverna, a escuridão era quase sólida, mas Castiel não se intimidou. A luz do refletor lá na cidade já estava começando a fazer efeito, e a névoa negra que saía do buraco estava mais fraca. Ele entrou, segurando a adaga de prata e o selo de barro. O cheiro de sangue estava mais fraco, o que significava que a arruda na Super Lanterna estava purificando o ar de alguma forma
 — Você... não... pode... me... selar... caçador... eu... sou... a... fome... eterna...
Castiel ouviu a voz do Pai das Sombras, agora um sussurro irritado. Ele correu para o salão principal, onde a massa de trevas pulsava, mais fraca, mas ainda imponente. Os Pálidos e Sedentos que sobraram estavam lá, protegendo o "Pai", mas a luz do Farol da Vingança já os tinha enfraquecido.
— E eu sou o Castiel, seu bicho feio! E hoje você vai pro seu eterno cantinho do castigo!
Ele jogou o pó de enxofre em círculo em volta da massa de sombras, criando uma barreira amarela no chão. Depois, cravou a adaga de prata no centro do círculo. A prata, em contato com o enxofre, soltou uma faísca azulada. Por fim, ele pegou o último selo de barro, que agora estava seco e duro, e colocou ele em cima do cabo da adaga.
 — O selo da vovó, a prata do caçador e o enxofre do capeta. A receita perfeita pra mandar você de volta pro seu buraco!
Castiel bateu com o punho no selo de barro. O disco se quebrou, mas a energia que saiu dele não era de luz ou fogo. Era um vácuo, algo que sugava a própria escuridão. O Pai das Sombras soltou um grito ensurdecedor, um som de milhões de almas sendo rasgadas. A massa de trevas começou a encolher, a se contorcer, como se estivesse sendo sugada por um aspirador de pó invisível.
 — É isso aí! Some daqui, seu chupa-brilho! E não volta mais, porque Rivergrove já tem seu próprio encosto ambulante, que sou eu!
   Os Sedentos e Pálidos, sem o "Pai" pra alimentá-los, começaram a se desintegrar em cinzas, sumindo no ar. A caverna tremeu, a terra gemia, e a massa de trevas diminuiu até virar uma mancha preta no chão que, segundos depois, desapareceu completamente, levando consigo o cheiro de podridão e sangue.
Castiel ficou ali, ofegando, com o corpo doendo e a alma mais leve. A caverna estava vazia, o silêncio voltou, mas era um silêncio de paz, de um lugar que tinha sido limpo. Ele olhou em volta, viu o sangue nas paredes sumindo, como se a própria rocha estivesse se curando.
 — Acabou
O banquete do inferno virou jejum. E o Castiel aqui, continua em pé
 — Mas que caramba, eu tô exausto. Se eu não comer um sanduíche de pernil agora, eu acho que desmaio.
Ele saiu da caverna, sentindo o ar fresco da madrugada no rosto. O sol já estava começando a nascer, pintando o céu com tons de rosa e laranja. Rivergrove, lá embaixo, estava voltando ao normal. As luzes das casas estavam acesas, mas não havia mais gritos.
Castiel voltou pra caminhonete, o Farol da Vingança ainda aceso na caçamba, mas agora a luz era de um azul suave. Ele se sentou no banco do motorista, jogou o chapéu no painel e deu um longo suspiro.
— É, vovô Jeremias
A gente conseguiu. Mas que trabalho do cão
E a conta da reforma do coreto vai ser impagável
— Mas que se dane o prefeito. Eu salvei a cidade, e isso vale mais que cem coretos e mil galões de querosene
Ele deu a partida na C10 e desceu a ladeira, de volta pra Rivergrove. A cidade estava salva, e Castiel, o caçador de monstros com alma de malandro.

Comentário do Livro (68)

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    CICERO OLIVEIRARAYANE

    PERFEITO

    7h

      0
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    PersiKeyliellen

    Esse livro é muito bom, a história em si é melhor ainda, principalmente para quem gosta de terror ou história sobrenaturais

    24d

      0
  • avatar
    AparecidaElizabete

    que lindo

    02/08

      0
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